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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pinceladas de uma Intimidade Liberta - V - DESEMPOSSADOS

Que sei eu de mim neste cemitério de ideias onde as flores da memória são pedaços de vida violada pelas sombras de um passado que se esmeram nos confrontos do seu futuro. O que poderia saber eu, de mim mesmo? Diariamente, sou arrebatado pela incoerência das minhas coerências na sublevação de uma consciência que se afoga em realidades insurgentes. Em que realidade pairam os sonhos do mesmo sonho que toca a reunir na parada das avenidas e das vielas que cruzam a cidade com os rumores do seu êxtase carnal? Subo, sob uma aurora de várias sonoridades, e, desço, atravessado pelo rio precioso das águas sedentas de uma foz que lhes cante o irracionalismo de uma poesia racional. As luzes da noite banham as águas do meu olhar. Os versos que a decoram são bailados urbanos de fugas tempestuosas, de brisas encantadas que pernoitam no cansaço dos corpos e que beiram a insânia atemporal de uma cobiça sequiosa. Corpos que são gritos de agitação fluvial, argumentos de uma película que se vislumbram nas grandes telas da existência. Por ti, passam estas horas de nada e, regado pelos encantos dos teus lábios silenciosos, adormeço, abraçado a um prazer que desconheço, carente de um afago de fogo celestial e de uma volúpia acidental. Afinal, eu, sou este apetite sensorial que se move por entre os lençóis da noite, descobrindo, aos ponteiros do tempo, a realidade de uma viagem madura e de um epílogo que se rebela contra o próprio enredo. Ao final, somos estes cânticos de imoralidade moral que se seguem em desígnios próprios, inapropriados que sejam, expropriados da pujança da existência.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 23 de Abril de 2026. - 20:33:03



segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Nas teias de uma alucinação delírica - VII - TÊ-LO-IA DIAS EM ARIDEZ

Tenho dias que vivo no deserto, entre as areias errantes, as estrelas e o Sol. Quando o vento entoa os seus cânticos de desespero, eu desapareço. Abraço-me ao alfabeto das dunas e não faço perguntas, nem ouço respostas. O vento apesar de ser um concerto de sons que lambem e lamentam toda a solidão que vestem, são o corpo do silêncio que caminha, perdido e cansado, entre a luz ofegante do Sol e a suavidade luminosa das estrelas.
A noite é o camelo que me conduz à lanterna de um oásis, onde o cansaço é um sonho de nunca mais acordar. A simplicidade deste percurso diário, é a arte complicada de não pensar, sugando todo o seu encanto com a realidade das dunas que me povoam e com a eternidade do camelo que se arrasta sem oásis e sem desertos para compreender que a água reservada, não é mais do que um sopro de pérolas que choveram dos olhos, sem luz do dia, sem a luz da noite, porque as dunas apenas lambem o tempo com os lacraus da finidade. Tem dias que esta duna que aparento ser, cobre a razão da luz, esconde no silêncio da sua imobilidade a voz que o silêncio abraça ternamente para que não se ouçam os pingos da chuva que nunca se olham.
Tenho dias que sou o adeus do próprio adeus. Só o vento me acalma, só uma palmeira conhece a sombra da minha sombra.
Tenho dias que entre o deserto e as estrelas, sou a simplicidade do nada, do ninguém.
Tenho dias que é este o hábito que visto na areia solitária de um silêncio.

Bellaria, 23 de Dezembro de 2024 - 14:53:48











quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Oblívio no engano XII – Quais as verdades?

Há verdades que deixam de ser válidas quando são violadas pelos verdugos que vagueiam viçosos, vestidos de vítimas nas vitrines dos vasos venenosos que vilipendiam as voracidades de outra verdade. Que verdade?
Nunca desisto de ser quem sou, mesmo quando não se é, o que se é na sinusite das ruas sinuosas do destino.
Há vampiros que vazam as volúpias dos vultos que vivem com as vendas dos vivos, volteando nas voltas dos vincos virtuais da verdade. Que verdade?
Rastejo como um réptil sem o ser, porque ninguém reconhece a sua inexistência no mundo dos animais palradores, embora, por vezes, reconheça o veneno que lanço com a precisão da imortalidade, não mortalizada.
Há vozes que vinculam as vagas das verrugas às vergastas que vaticinam aos fígaros da verdade. Que verdade?
Eis uma razão para não ser o que se é: ser-se o que se é. É um sinal de fugas. E por que razão fugir é uma fuga e não os sinais do seu sinal? Sou um sinal de acentos finais.
Há violinos, violoncelos e violões que vogam nos veleiros da velhice, vergando às suas viagens as vassouras dos vergões que vibram as vogais que velam pelas vírgulas de umas vagas verdades que vocalizam a própria verdade. Que verdade?
Já não subo ao cume de mim mesmo, desde que os pensamentos me abandonaram. Não lhes ligo importância, porque sei que todo eu sou um pensamento. Quem não se espelha no espelho das minhas barbas, reflete-se na silhueta do seu pensamento. São esculturas de natureza indefinida.
Há vasilhames de verga nos vermes das verduras que visam as viseiras das vocações que vislumbram as vitórias vibrantes dos vagões que vasculham os vícios da verdade. Que verdade?
Sou a sombra das sombras que passa despercebida por entre os vários silêncios que se formam à volta da fogueira que acendo sem os fósforos da vida. Ser visto no oleanário da vida, não é a página solta de uma vida que o vento assobia nos rápidos dos olhos noturnos.
Há vigores que são valores no vetusto virtuosismo da vacuidade vitalícia. São vitaminas valiosas para quem se vilipendia à vista da sua vigarice com vulgares vitimizações para vangloriar-se de um voto sem verdade. Que verdade?
Esta verdade, apesar não ser a minha verdade, é uma verdade a que não posso escapar, porque quem vive, vivendo uma não vivência de verdade que é verdadeira, só pode invocar como verdade, a aparência de ser o que se é no centro das mentiras que passam por ser uma verdade que não é verdadeira, porque não se reveste com as barbas da verdade que se vêem à vista desarmada da verdade de quem quer que seja.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 06 de Novembro de 2024 - 16:09:27











domingo, 16 de junho de 2024

Pinceladas de uma Intimidade Liberta - IV - SAINDO DE MIM MESMO

Domingo. O sol que espia por entre as formas de algodão mal se vê e, eu, mal me distingo na apoteose do nada. Desligo o rádio e dirijo-me à frente da minha casa, dando as caras à via Mar Jonio, partindo sem rumo mas com certa tendência por buscar a via Uso. O fiume Uso sempre me traz algo de nostálgico, melancólico, mas que por tantas vezes busca com dificuldade um longínquo e quase frívolo grão de esperança dentro deste ser, que, talvez já não busque qualquer outra coisa senão uma tergiversação vã, e, de certa maneira cômica para com o passar dos dias num desígnio que por certo se aprochega do fim. O destino, ao que parece, não pode abandonar seus contornos truculentos; voa em minha direção um bloco de jornal impresso que enrosca por entre minhas pernas. Nem chutar me apetece nesta caminhada que se sente como um flutuar com pesos. Apanho a desgraçada e tão amassada publicação. Leio notícias. Respiro sobre elas. A fibra de quem governa é nenhuma. O Governo é displicente, ignorando o sentido de Estado. Parece um grupo dramático de teatro, representando a comédia dos seus próprios atos. Confrangedor, na melhor da hipóteses. Este Domingo me aborrece ainda mais do que todos os outros. Sou carteiro de mim mesmo. O telegrama é um sonho que se despede. Todos os sonhos são assim. A Morte é a Vida que não se sonha. Saio, saindo de mim mesmo e regresso, alheio, ao encontro de todos os meus desencontros. Dos encontros, o sonho que se despede, se despe saindo de mim mesmo.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 16 de Junho de 2024. - 16:39:58

Renato Cresppo (photo by Angioletta Pilla Nel Vento)










segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Oblívio no engano XI - Memórias Riscadas

Dia após dia, cresço por fora e diminuo por dentro. O cerco das palavras, que era intenso e denso nas galochas dos meus espaços interiores, vai-se relaxando e, eu, sem querer, vou-me perdendo nos labirintos do seu bosque que, embora frondoso, se vai cerrando, encerrando-me na catástrofe dos seus limites. A memória dos seus trilhos infatigáveis vai sendo riscado, pouco a pouco, pela cegueira incrédula deste envelhecer que modela o equilíbrio da espontaneidade com as mãos calosas do inverno que não perdoa os afetos do seu tempo. Amigo destes colapsos diários, abraço tudo o que posso com esse desejo, quase fanático, de nada perder à visibilidade do meu cotidiano. O espantalho dos seus campos mitigados assusta-se com a impertinência da minha frontalidade ante o desespero da sua inutilidade. Esta é a luta diária do meu cérebro que, nas espigas da criação, floresce, por inteiro, nas rotas do seu futuro precário. Sou a tempestade da bonança na caverna da esperança, esse saber de não ser, sendo, tudo o que se pesa na balança da boa temperança.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 27 de Novembro de 2023 - 17:43:20











quarta-feira, 19 de julho de 2023

Lampejo Diário III - APATIA DA INQUIETUDE

A vida é a sonolência do silêncio. Adoramos a impaciência da futilidade e a resistência da passividade. Desenhamos os argumentos das sequências que filmamos à apoteose da nossa vitimização. Somos coerentes na incoerência e divinizamos a inclemência do nosso subconsciente. Somos viajantes de uma vida irracional e somos empregados do raciocínio que se ausenta para parte incerta, mal a deformação do ruído que nos surpreende o declínio, se estende pela volatilidade da nossa natureza, fria e indômita, quando o cálculo da aspereza se embrulha nos novelos de uma respiração asmática. Não receamos o receio, mas congelamos as fugas da realidade, em frigoríficos de tragédias, insuflados pelos costumes da moralidade aparente. A vida é o consumo astral da impaciência e da impotência no jogo diário dos sumos coletivos. Embebedam-se, sem medo, no completo desconhecimento de qual é o seu prazo de validade. Ombreamos com o prazer da ostentação presumida e revelamos, encantados, a sépia confrangedora da nossa inércia. A mansidão não é um adjetivo mas sim um substantivo implacável. Dele, bebemos a sonolência do silêncio na absoluta apatia da inquietude.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 19 de Julho de 2023 - 16:46:54











sexta-feira, 28 de abril de 2023

Oblívio no engano X - TESTEMUNHO

Se tudo o que sinto
É solidão
E a dor com que pinto
O coração
Não sei
Mas sei
Que provo essa distância
Entre mim e a tua fragrância.

Dias houve em que foste real
Nas portas do meu olhar
Mas eu como um rural
Não te soube encontrar
No sal do mar.

A noite dos teus cabelos
São o sol do meu tear
Que a sede de tecê-los
Em brocados de luar
Roca o ar

Se tudo o que falha
É a paixão
E a dor que se encalha
Por ilusão
Não sei
Mas sei
Que tudo em mim renovo
Ao provar como te provo

Na doçura da pureza
Na candura da certeza.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 28 de Abril de 2023 - 15:17:39











Nas teias de uma alucinação delírica - VI - OSCULAÇÃO

Por entre os sopros, as seivas que são lágrimas, vão e voltam, na não complacência dos chiados que são gritos, alumiando inquebrantáveis, quase que implacáveis - estes teus belos lábios que no ósculo se deflagram.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 28 de Abril de 2023 - 14:59:12











terça-feira, 18 de abril de 2023

Oblívio no engano IX - NA AURORA SERÔDIA

O rolar tenso nas ruas da cidade desanuvia o ar que respiro, bafo sedento de vida marsupial. Escondido das raivas que os dentes trituram, passo pelo teu olhar sombrio e cravo, nele, o tradicionalismo romântico do amor inesperado. Tens o olhar do passageiro sedentário. Passas, observas e absorves o pássaro instantâneo que fotografas no seu voo de libertino inconsciente. Compreendo que assimilaste a metáfora que sou. Alegre, deslumbro os pensamentos com o sol radioso que, de ti, se desprende. Não falamos, nem conversamos. O diálogo fica para o tempo de solidão. Abraçados, na noturnidade, romperemos pela aurora dos sonhos e desenharemos, em miragens de sentimentos, a realidade de um amor que floresceu por entre as roturas doces de uma abundância serôdia.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 18 de Abril de 2023 - 15:08:17











quarta-feira, 22 de março de 2023

Oblívio no engano VIII - CARICATO

Sou grotesco no espelho da manhã, diariamente, que sei eu? Abro, aos olhos da sonolência vadia, as cortinas do tempo, e absorvo os fotogramas solares que me beijam a pele nua. É uma sensação agradável que se mistura com o sentido desagradável dos caminhos perpétuos que palmilho sob a sofreguidão desta idade que me espezinha o limite das fronteiras onde habito e desfruto da pigmentação que me harmoniza a instabilidade emocional. Abro o chuveiro da irrealidade, e, realisticamente, esfrego o corpo com o sabonete do rejuvenescimento, despedindo-me das dores que me corroem a integridade, física e mental. Sou o pavio aceso de um fósforo apagado, e espalho a luz da minha consciência pelas hipérboles noturnas do tecido carnal que expõem, à espiral do desejo, as colheres vitaminadas com as delícias orgânicas do tempo que, vivificadoras, me decompõem a acidez portuária da existência, cujo fluxo é a degeneração desta vida filtrada pelos poros da suavidade burlesca. Grotesco, caricato, burlesco, que melhor sentido se pode oferecer ao sentidos que sem sentido tudo sentem.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 22 de Março de 2023 - 13:48:26











quinta-feira, 2 de março de 2023

MELOPEIA

Na filosofia do gesso
a Razão vira do avesso
quem nasceu por acaso
em fundos de prato raso,
em figuras de estilos,
nas cantilenas dos grilos
que não se cansam de rugas
nem do peso que alugas
aos fatos do corpo velho
e aos pactos da quietude
que, ao nada, aconselho
e, ao tudo, que mude
sob alarmes de pujança
e rituais de elegância
que, na profunda esperança,
são esperas de arrogância.R Cresppo ☧

Bellaria, 02 de Março de 2023 - 13:31:36











por Renato Cresppo

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

O DESGOSTOSO AMOR DE NÃO SE TER

Sentado, em um banco da piazza Marcianò, observo a elasticidade da vida que passa, zumbindo, diante dos meus olhos. Consulto o meu velho Swatch. São horas de me encaminhar para a Vinoteca Foschi. Apanho em minha bolsa tiracolo de lona meu já ultrapassado celular, ligo-o e ponho-o a tocar Smiths e, sem pressa, tenho tempo, levanto-me e caminho por entre árvores sem idade, por entre corpos que dialogam, em conversas banais, em conversas amorosas. Desço pela Via Muggia e, após caminhar por algumas quadras da centenária comuna, entro na livraria Frascaroli Marco, fronteira à vinoteca, e consulto o espaço dedicado aos livros de música erudita. O meu velho Swatch apressa-me. Entro no prédio da vinoteca e dirijo-me ao seu terceiro andar, onde se encontra a sala de reuniões. Ao entrar, a verdade estremece-me o corpo, aumenta-me o ritmo cardíaco – Angiolletta, a sommelier. Ao vê-la, deixo de ver; o mestre enólogo e os demais enófilos são apenas esculturas de carne viva que se enclausuram em um quadro vivo de aparências teatrais. Os belos olhos dela, de uma claridade assombrosa, encontram-se com os meus, acenam-me sorrisos e, eu, corpo dançarino, envio-lhe uma saudação repleta de alegrias que, verdade seja dita, só este meu sentimento de jovem seduzido compreende em toda a sua verdadeira extensão. Neste entorpecimento amoroso, o enólogo é um ruído de fundo, uma voz que nos explica o que não sei explicar, um relatório qualquer que me desgosta o gosto da sua presença divinal. O tempo não tem obstáculos, mas a minha timidez é um obstáculo. A sineta soa, aos meus ouvidos, como uma canção de embalar. Saem todos, saio, eu, sai, ela, saímos para o mundo da consciência aberta, fechando os meus desejos, ocultando, mais uma vez, a razão das minhas razões. Junta-se, alegre, ao seu grupo habitual e, eu, pego no meu corpo, sem destino, e fujo, literalmente, do brilho que me encadeia os passos, lentos e tensos, e escondo-me, em um canto da piazza Giuseppe di Vittorio. Abro a minha bolsa e, dela, retiro a epopeia “Tragico tascabile” do majestoso Guido Ceronetti. Por entre seus poemas sigo por onde nunca seguirei. Eis-me inteiro e dividido entre o gosto de ser amado e o desgosto de não o ser.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 24 de Fevereiro de 2023 - 16:43:39











por Renato Cresppo

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A DOR DE AMAR É

Nas lareiras do passado
ardem palavras de sebo
lavrando no seu recado
as ideias claras de Febo
que, em anúncios de sede,
lavam a fome dos medos,
pálidas bocas de rede
que pescam os seus segredos
e desovam argumentos
no cosmos dos seus tormentos.

Com as lâminas da dor
se pincham velhas memórias
e com a salsa do amor
se dança ao ritmo das estórias
que rabiscam as comédias
dos que partem sem Orfeu
e dos que ficam sem rédeas
no jardim de Prometeu
onde o que fogo é
salga a dor de maré.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 18 de Fevereiro de 2023 - 13:49:32












quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

NO RITMO BAMBA

Cada palavra que me imagina
Soletra o samba da vida,
Redige a nota concreta
De uma sequência filmada,
Filme do desencanto
E da travessia louca
Que são estes passos
De raízes firmes
E de frutos selvagens
Que degustam a dor
E fazem do prazer
O doce ritmo do amor.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 08 de Fevereiro de 2023 - 14:32:25












terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Nas teias de uma alucinação delírica - V - O COPO CHEIO DE UM CORPO VAZIO

Este copo cheio de ti
Saúda a memória do teu corpo em festa.
Bebo-o, trago a trago,
Como se fosse os pingos do teu cabelo molhado,
Como se cada gosto seu
Fosse o desgosto do teu aceno.
As lágrimas do teu olhar
Bebidas por estes olhos de gelo,
Fogo que não se vê. Ardem.
São álcool que queima este silêncio.
Bêbado de ti, encharco o tempo,
Este tempo sem ti, sem o gosto deste copo vazio.
Gota a gota, perdeste o sabor,
Mas em cada lágrima que ouço à noite
Vai um rio de nada. 
Um corpo de voz.
Um copo de foz.
Uma foz de tempo.
Vazio. O corpo.
Vazio. O copo.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 07 de Fevereiro de 2023 - 13:13:32











sábado, 4 de fevereiro de 2023

Nas teias de uma alucinação delírica - IV - A FLOR DO TEMPO

Sempre que caminho pelas ruas do tempo, sinto num recanto interior, muito bem escondido, um pequeno jardim com uma única flor plantada pelos filamentos da idade. Umas vezes acendem-se, outras, apagam-se. Nas esquinas do tempo, onde o passado anseia pelo futuro, há um osso de saudades que me recuso a roer. Nunca nos terminais do destino encontrei razões para que a flor se tenha recusado a florescer. É um jardim triste, apesar da muita música com que festejei a alegria de a ter comigo. Embora o tempo seja eterno, eu não o sou. Será que ela o será? A velhice não me apoquenta. A flor provoca-me com tratados de incompreensão.

O corpo vai adormecendo, pouco a pouco, mas ela continua, interna e sorridente, perante o desespero de não encontrar a semente justa que seja o alimento que a desperte e me emagreça a tristeza que me enfeita os lábios das dores, flocos de neve que se vão derretendo, ao sentirem os fios solares soprarem-lhe as últimas gotas de vida. Talvez, eu seja um floco de neve que, ao derreter-se, liberte, finalmente, a glória perfumada desta flor que me desconhece e que não chora, sendo um sonho que a morte do meu tempo conduzirá, certamente, ao seu florescimento triunfal. Porém, eu não sou quem pareço, e a flor não o sabe. A bebedeira do meu último suspiro será a última melodia que remará com a brisa do tempo.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 01 de Fevereiro de 2023 - 09:01:24












quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Oblívio no engano VII - OS DESCENDENTES DO TEMOR DA VIDA

Pertenço ao cantinho dos vultos que estendem a mão ao Futuro, porque o passado os transformou em descendentes do temor da vida. São apenas números no arco do triunfo dos endividamentos, santificados pelo ostracismo a que são vetados todos os que não se abrigam nas cavernas dos que sopram os ventos da sua estabilidade, graças à instabilidade dos que professam as magias falsas da salvação cotidiana. Cansei-me das cantigas dos que louvam as louva-a-deus dos mandatos irrefletidos nos espelhos das vaidades individualistas dos que fingem que são, o que não sendo, passam por ser o livre arbítrio das mentiras que cheiram às lixeiras das verdades em que já ninguém acredita, a não ser eles mesmos, agarrados que estão, aos fluídos endividados das suas dúvidas abstratas, defendidas pelos carrapatos das ignorâncias ideológicas e pelas realidades que são o monte Evereste da falência coletiva. Não importa afirmar que não somos o que éramos noutros tempos, importa sim avaliar o que seremos se continuarmos a ser a fundição dos planos, fundidos nas sepulturas da mendicidade coletiva no reino dos reinados abstratos. Pouco me importam as vigílias dos cérebros empedernidos na vigência de um reino simulado. O que se aclama não são realidades, mas abstrações de cérebros conflituosos e de afrontamentos paralisados pela ignorância de uma fragrância luminosa. Quando todos acordarmos para a claridade da nossa sina, saberemos ouvir no fragor de um desmoronamento, o quadro simbólico de um retângulo ridículo, esfumando-se na espuma da inexistência. Será a água e não o azeite que virá ao de cima. Eis a verdade de uma outra verdade que a verdade não deixará omitir.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 01 de Fevereiro de 2023 - 09:01:24











por Renato Cresppo

Lampejo Diário - II

Viver
Não é a ponte do escurecer.
Passeio de passos leves,
Voos secretos de asas breves,
Risos de crianças adultas
No poente das lágrimas ocultas,
Sonhos que se entrelaçam
Entre margens que se abraçam
Sem que os ventres maduros
Fujam por entre os segundos obscuros,
Sem que o rio, aves corredoras,
Lave as suas águas em tinta rubra,
Para que se conservem límpidas e acolhedoras
Aos corpos de quem o descubra 
E quem nele queira marulhar
Com as dores do luar.
E acordar,
Com a ponte em outro lugar.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 01 de Fevereiro de 2023 - 16:11:58











por Renato Cresppo

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Nas teias de uma alucinação delírica - III - O ALAÚDE E EU

Estou sentado em um degrau de um dos prédios de uma rua do centro storico de Rimini. Do meu lado esquerdo, encostada à porta, jaz um velho alaúde; do meu lado direito, sobre o degrau, descansa uma garrafa de vinho tinto seco que vou bebericando de quando em vez. Os meus olhos, ligeiramente enevoados, acompanham o estranho movimento ondulante da rua. Tento pensar em algo que me distraia, mas os pensamentos, primeiro, aglomeram-se, incandescentes, depois, esfumam-se como se fossem argolas de fumo, construídas à partir de um cigarro que se imagina, de um tempo que se evapora por entre os passos tumultuosos de corpos que se envolvem com os ritmos da noite, em um frenesim de contos inacabados. Coloco o alaúde entre as minhas pernas, afago-lhe o corpo envelhecido pelo uso e permito que os meus dedos perturbem o sossego das suas cordas, sequiosas de propagarem pela noite os poemas sonoros do seu encanto. O alaúde e eu somos um corpo único, beleza das belezas musicais que bandos de jovens vão ouvindo, passando, ou sentando-se, à nossa frente, em um semi-círculo de jovialidade noturna. Os meus olhos fixam-se em uma janela de um prédio diante de nós. Abre-se, de par em par, deixa que os sons penetrem de mansinho pelos sonhos de um sono desconhecido. Dos meus dedos soltam-se notas que, de início, flutuam, para, depois, voarem como pássaros em busca dos seus limites despovoados, essa sensação de liberdade que envolve as pupilas do meu prazer e desfilam como imagens cinematográficas de um filme em que o argumento é este vagabundear sonoro pelas veias da vida. Há jovens que bebem, há jovens que dançam por dentro das suas memórias difusas, como que espelhando pela noite dentro as sombras vinícolas dos seus desejos mais ardentes. Uma espécie de magia negra apoderou-se do meu corpo que, lentamente, se foi diluindo até que, eu, e o alaúde, em metamorfoses de um tempo desconhecido, abraçamos o voo discreto do corvo de Poe que, sobre o parapeito da janela, segredou aos ouvidos da noite, "nunca mais". E nunca mais, eu, e o alaúde, somos.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 08 de Janeiro de 2023 - 15:47:10











por Renato Cresppo

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Pinceladas de uma Intimidade Liberta - III - O RITMO DA CIRCULAÇÃO

Soprando os sopros de fumaça de um Fortuna, um tabaco espanhol razoavelmente agradável, encontro-me sentado em um dos degraus da Astra Theater Bellaria, e enquanto apago a guimba no degrau inferior, ouço os sinos que anunciam o início de mais uma das suas sessões. O som transporta-me a um destes dias em que seguia no trem da linha Ferrara-Rimini, batia a noite o seu turno. A composição parou na Estação Bellaria. Dela, saiu uma jovem de cabelo encaracolado, blusa esverdeada e calça jeans. Parou defronte de uma das janelas do trem e, com o olhar inundado de tristeza, enviava, com as pontas dos dedos, beijos soltos de saudades súbitas, a saltitarem de frescuras imensas. Sem que pudesse evitar, fui contagiado pela tristeza e embalsamei, no meu olhar, Cupidos do tempo em que amei amores que não sei. A separação denotava desejos de uma união que se fortalecia na coragem de viver cada minuto, cada segundo, os pequenos e eternos prazeres de abraçar os abraços da ternura e de beijar os beijos das suas intimidades. Só se avalia um adeus quando as portas de uma despedida se abrem à solidão do silêncio. Parte-se para um destino concreto, embrulhado em palavras de segredos e mistérios que acondicionam o regresso ao parque dos sonhos que nascem e reconfortam o corpo entre os lençóis de uma ausência, distância imaginária que, em um dia qualquer, levantará o nevoeiro que paira sobre a fluidez de uma chama amante que amanhece ao entardecer.

Estas sequências de uma peça de teatro que se repetem em muitas sessões, são, inúmeras vezes, pausas de um tempo que escapam aos seus enquadramentos, ameaçando as debilidades da sensibilidade amorosa com a secura de paisagens que amolecem em transições de luz baixa, transcendendo as realidades com os subúrbios dos esquecimentos, dos abandonos que ferem e desarmam todo um futuro que, subitamente, é passado.  O trem reacendeu a sua circulação e, com ele, recomeçou o ciclo das vidas dos que nele ficaram. Observei a agilidade do tempo que, no seu bojo, transporta milhares de atores que representam o seu papel neste grande palco da vida que veste o universo com as partículas da nossa bioeletricidade. Somos amantes, amados ou não, porque esse é o ritmo do nosso coração.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 24 de Janeiro de 2023 - 15:11:55