Que sei eu de mim neste cemitério de ideias onde as flores da memória são pedaços de vida violada pelas sombras de um passado que se esmeram nos confrontos do seu futuro. O que poderia saber eu, de mim mesmo? Diariamente, sou arrebatado pela incoerência das minhas coerências na sublevação de uma consciência que se afoga em realidades insurgentes. Em que realidade pairam os sonhos do mesmo sonho que toca a reunir na parada das avenidas e das vielas que cruzam a cidade com os rumores do seu êxtase carnal? Subo, sob uma aurora de várias sonoridades, e, desço, atravessado pelo rio precioso das águas sedentas de uma foz que lhes cante o irracionalismo de uma poesia racional. As luzes da noite banham as águas do meu olhar. Os versos que a decoram são bailados urbanos de fugas tempestuosas, de brisas encantadas que pernoitam no cansaço dos corpos e que beiram a insânia atemporal de uma cobiça sequiosa. Corpos que são gritos de agitação fluvial, argumentos de uma película que se vislumbram nas grandes telas da existência. Por ti, passam estas horas de nada e, regado pelos encantos dos teus lábios silenciosos, adormeço, abraçado a um prazer que desconheço, carente de um afago de fogo celestial e de uma volúpia acidental. Afinal, eu, sou este apetite sensorial que se move por entre os lençóis da noite, descobrindo, aos ponteiros do tempo, a realidade de uma viagem madura e de um epílogo que se rebela contra o próprio enredo. Ao final, somos estes cânticos de imoralidade moral que se seguem em desígnios próprios, inapropriados que sejam, expropriados da pujança da existência.❞R Cresppo ☧
Bellaria, 23 de Abril de 2026. - 20:33:03
