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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Intimidade!

Intimidade. Que sabor tão estranho na saliva diária da sonolência, que raiva tão íntima de não ser íntimo de nada. Despir a nudez e vestir a magreza do sonho violado com o alfabeto da timidez urbana é um sentido, sem sentido, dos sentidos que não se sentem. Presença de espírito, gritam os fantasmas da ópera, algemados à geada emocional de não haver emoções à flor da pele. São íntimos da intimidade, mas revelam a fragilidade de uma infância que permanece austera no corpo de uma idade vertiginosa, em concertos de vida. O maestro e o músico são uma e a mesma personagem ao relento de uma atmosfera híbrida. Nada consola a intimidade. O desconsolo é uma imobilidade na batuta da sua sequência filmada. Vesti-la com segredos de cor, é bani-la com as banalidades de um diálogo inócuo. Intimidade, que fraqueza tão anônima no busto de uma centelha fugaz! Sagrado é o fogo que preside ao seu prazer de tudo ser, nada sendo. Intimidade! Que estranho eco, esse, o que ressoa na profundidade perpendicular de um átomo decadente. Despenteia emoções, vagueia, incólume, no universo do seu desconhecimento, é, ridiculamente finito, na inocência noturna da sua verticalidade autônoma. Não a habito se, nela, me reconheço. Sou um estrangeiro na face da sua mudez, sou um seu passageiro no bafo tricotado pelos dedos sonoros do silêncio. Intimidade! Vaga, no pudor, astuta, no ritmo ágil da sua cadência imutável. Intimidade! Ardente, na verdade pétrea do seu consumo, eterna, na pureza do seu instinto. Intimidade! É este corpo inteiro que, em nome da sua verdade, renasce, a cada passo dado, para além de todas as suas partículas sensíveis. Intimidade!❞R Cresppo ☧


Bellaria, 25 de Junho de 2015. 14:20:37


por O Abre Aspas

Tempo de Veludo

Eis o tempo de veludo
Nas capas do entrudo,
A simetria acústica
De uma prece rústica,
A conversa robusta
Que, noturna, assusta
Quem cimenta, agreste,
A revolta que veste
A floresta que nos vibra
Com a raiva da fibra
Com o rasgão da saliva
E o sabre que nos cativa
Em celas de penúria,
Em suadelas de fúria
Para que o sarro da vida
Evapore a crua ferida
E a todos nos enfeite
Com o ciúme do deleite.❞R Cresppo ☧


Bellaria, 25 de Junho de 2015. 11:42:09


por O Abre Aspas

terça-feira, 26 de maio de 2015

Por onde, Onde, Que importância isso tem?

Por onde passo,
por onde passei,
por onde passarei,
que importância isso tem
se não passo de um nado morto da palavra?
Respiro por respirar,
durmo por dormir,
vivo por viver,
que importância isso tem
se as páginas que escrevo
são sílabas da noite que não amanhece,
são fibras de vento que não se ouvem?
Estes passos que ritmos não têm,
são sombras que se alugam às manhãs noturnas,
bocas seminais
que, no universo da vida,
percorrem as vielas secundárias
das aduelas urbanas,
erguendo os fusos horários
de um tempo inóspito.
Por onde vou,
por onde fui,
por onde irei?
Que matriz de sangue é esta
que se esvai por entre o medo de não o ter,
apagando o riso à garganta seca
e acendendo à luz elétrica do cacimbo
os faróis da claridade
que espantam o negrume do silêncio
e vestem ao corpo das monções
a brisa calculada de um encanto pueril.
Onde estou,
onde estive,
onde estarei,
que importância isso tem
se sou esta morte de fera viva.❞R Cresppo ☧


Bellaria, 26 de Maio de 2015. 17:12:02


por O Abre Aspas

Por quem Sois

Por quem sois, clorofórmio de amor
que desta vida nada leva a boca,
nem a cegueira que a oscula, oca,
nem a cerveja que a fisga co´ardor.

Por quem sois, trepadeira incolor
que toda entrançais por coisa pouca
no vespeiro que a traça esgana louca
ao amante do fausto e da dor.

Por quem sois, que tendes o dom da troça
que atiçais a quem por vós se roça
sob a razão do céu e do decote.

Por quem sois, que sendo farsa e chacota,
vil, derramais, estulta e devota,
o frenesim grotesco do fagote.❞R Cresppo ☧


Bellaria, 26 de Maio de 2015. 16:39:08


por O Abre Aspas

Etérea, a doçura prevalece

Esta doçura que me invade,
esses lábios de futuro
que passado não serão,
registam nos meus cabelos de tempo
esta vaga sensação de edílios
que se pressentem agnósticos
na ponte das margens inesperadas.
Viagem de emulsões,
forja de pulsações,
onde o ferreiro digital
forja a pressão táctil
que o corpo fecunda
para além de tudo o que é imortal.
Etérea, a doçura prevalece.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 26 de Maio de 2015. 16:07:34


por O Abre Aspas

quinta-feira, 21 de maio de 2015

As ideias que o Vento Espalha

As ideias que o vento espalha
são a sucata do perfume
que se sente na boca do ciúme
e no coração que falha
mal o amor encalha
entre o silêncio da dor
e o fogo do pavor
que arde na razão
onde tudo se escreve
com a mão que prescreve
o rito da ilusão
e a fronteira do não
que se ouve na boca do vento
e no grito do pensamento.
Fugaz como a luz da vela
mordaz como o pincel
que derrama sobre a tela
a claridade cruel.
Ideias que o tempo descobre
e que o breu da noite encobre.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 21 de Maio de 2015. 11:33:52


por O Abre Aspas

A Dolorida Cor de Um Ponto Final

Lindos são os faróis dos teus olhos
prata cintilante no rubro da noite.
De chocolate são teus lábios de morango
que sedentam a minha língua rugosa e áspera
com sonhos de viços leitosos.
Luarento é o teu corpo de ébano
fresco na nudez
suculento nos sumos da vida.
Bêbado de tanto te beber
vagueio exausto
por cada canyon do teu prazer invejável.
Sedosos são teus seios de sedução morna
que beijo com as carícias de asas fugidias
e lacrimoso é o meu corpo
em cada esquina do tempo
que dobro como quem vira a página
de um livro aberto e inacabado
esperando que cada ponto do teu deambular
pelos passos do meu olfato
não seja a cor dorida de um ponto final.❞R Cresppo ☧

Bellaria, 21 de Maio de 2015. 10:12:44


por O Abre Aspas